A DEPRESSÃO ATUAL

Psicólogo e psicanalista explica a depressão nos dias de hoje.

  

Neste bate-papo sucinto, Julio Cesar Nascimento faz um retrato das principais características da nossa sociedade que compõem o quadro da depressão. Entre elas, se destaca a não expressão de determinados sentimentos, a exigência de se mostrar sempre forte e contente, a busca por um Eu ideal que agrade. Além desses pontos abordados pelo psicólogo e psicanalista, Julio fala também sobre a diferença entre estar triste e deprimido, a importância de entrarmos em contato com a própria dor e por que isso traz amadurecimento. É uma entrevista que alerta sobre a forma como estamos vivendo e onde estamos inserido, ao mesmo tempo que refresca e atenua o olhar exigente que, muitas vezes, impomos a nós mesmos.

 

Por Keila Bis

Você diz que a tristeza é o maior tabu da vida contemporânea, pois hoje há a ditadura do “ser alegre”. O que isso tem a ver com a depressão?

Na época de Freud (Sigmund Freud, 1856-1939, criador da psicanálise), a agressividade e a sexualidade eram as manifestações afetivas mais reprimidas. Atualmente, ser agressivo, especialmente no ambiente corporativo, tem um certo charme, mas estar triste ou chorar em público é interpretado como prova de um completo desequilíbrio. A imagem do Eu Ideal é sempre a de um Eu alegre, quase maníaco. A tristeza é uma reação normal, sobretudo nos casos de luto, ou seja, quando o sujeito se depara com a perda de um objeto significativo ou de um ideal valioso. Entretanto, mesmo diante da perda do objeto, a tristeza é interpretada como depressão. O que é um equívoco que faz o enlutado se sentir em dívida com o ideal vigente de felicidade. Não há espaço para a expressão da vulnerabilidade.

 

Reprimir os sentimentos pode levar à depressão?

É óbvio que o imperativo de sermos fortes e corajosos todo o tempo não se sustenta a longo prazo.

 

Cada vez mais, as pessoas tomam psicoativos de forma precipitada. Por exemplo, após o fim de um relacionamento é normal que a tristeza apareça e a pessoa ser capaz de passar por esse momento sem ter de recorrer aos psicoativos. Por que é importante entrar em contato com a própria dor?

Lidar com o sofrimento exige que cada um de nós se desenvolva e invente respostas criativas para superar a crise atual. Isso é enriquecedor. A tristeza revela que perdemos algo valoroso e isso nos informa quais objetos amorosos ou ideais são importantes para nós. Todo esse processo gera amadurecimento e maior capacidade de lidar com o viver.

 

A depressão tem a ver com a cultura dos dias de hoje que faz o sujeito se mostrar sempre produzindo, funcionando e tendo sucesso?

Não é bem verdade que a ideia de ser um sujeito produtivo seja um mandamento do nosso tempo. O sujeito burguês já era considerado doente e candidato a internação nos manicômios caso não fosse produtivo, sendo considerado degenerado. Talvez o que seja específico da contemporaneidade é que a exigência de ter sucesso e exibir imagens de sucesso se tornou compulsória e diária através das redes sociais. Mas desde o surgimento da burguesia os sujeitos passaram a ter valor pelo que construíam. Sempre houve um Outro que ateste esse valor.

 

Ou seja, estamos sempre procurando pelo aval do outro sobre nossas ações?

Nós não somos capazes de abrir mão completamente do olhar do Outro. A pergunta é: depois de livres qual o outro que escolhemos demandar reconhecimento e, portanto, submissão. O deprimido é um sujeito em desacordo com o Bem. A questão é que em vários momentos da história encarnar a imagem suprema do Bem pode ser impossível. Assim, alguns monges cristãos podiam adoecer pela sua incapacidade de renunciar aos prazeres da carne, no limite, adoeciam pela sua incapacidade de serem Deus. Muitos jovens não aspiram serem semelhantes a Jesus mas aspiram ser a imagem e semelhança de certas celebridades. Muitas destas imagens são impossíveis de serem encarnadas pela esmagadora maioria dos mortais. Certa vez, disse a uma amiga que eu adoraria ter um apartamento igual ao dela que saiu numa revista de arquitetura e ela respondeu: “Eu também!”. Depois, passou a me explicar que as fotos do apartamento dela eram fruto de uma edição feita pelos arquitetos da revista, que trouxeram móveis e objetos para melhorar a imagem do apartamento. Ou seja, nem mesmo para ela aquilo era real.

 

Quais são as outras causas da depressão que você mais identifica na sua clínica?

Estar distante de qualquer ideal pode causar angústia, e, consequentemente, acionar diferentes formas de lidar com esta distância entre o Eu real e o Eu Ideal. O depressivo é aquele que inconscientemente desistiu de lutar. Diante da constatação que ele não encarna o ideal, a sua saída neurótica é desistir sequer de tentar a tingir esse ideal ainda que parcialmente ou construir ideais alternativos. Ele simplesmente desiste. Ele nem sequer arrisca jogar, pois vê o jogo como desde sempre perdido.

 

Você pode dar um exemplo do que seria encarnar esse ideal?

Muitos jovens constatam que determinadas características físicas e estéticas são exigidas pelo seu ambiente social ou virtual (universo repleto de imagens de corpos perfeitos da publicidade ou das mídias sociais). Essa exigência de um corpo que não é aquele que ele possui o angustia. Existem pessoas que aceleram na busca desse corpo perfeito através de dietas, procedimentos cirúrgicos e adesão religiosa a rotinas de exercícios. No recuo depressivo o sujeito descrente da sua capacidade de alterar o seu corpo por essas vias decide sequer tentar, pois no fundo sabe que essa é uma grande ilusão e que a promessa de felicidade não é para ele.

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