Crianças psiquicamente saudáveis

Psicanalista explica o universo da primeira infância, o funcionamento psíquico das crianças e o que elas precisam receber nesse período da vida para terem autonomia na vida adulta, independentemente dos pais.

No meio psicanalítico e na clínica de crianças, o nome dela é sempre citado. Monica Seincman aceitou conceder esta entrevista para o blog Corpo São Mente Sã em meio às inúmeras funções que exerce como psicanalista e professora. Com seu jeito simples, direto e divertido, ela explica neste bate-papo a importância do brincar, os sintomas psíquicos que aparecem nas crianças que não brincam, o excesso de jogos eletrônicos e os prejuízos que isso causa. Toca em assuntos polêmicos que os pais normalmente não gostam de falar, como o prazer que os pequenos sentem com o próprio corpo e as questões narcísicas que os cuidadores tendem a projetar nos filhos. Sem criar culpa, drama ou fazer julgamentos, Monica aborda e esclarece muitas outras questões sobre os cuidados com as crianças na primeira infância.

 

Por Keila Bis

Monica, por que as crianças precisam brincar?

A brincadeira, num sentido amplo, é como as crianças, assim como os adultos, se aproximam e se apropriam da realidade. A compreensão vem da possibilidade e da capacidade de brincar. Por exemplo, muitas brincadeiras infantis permitem que a criança possa assumir um papel ativo, a partir de uma experiência na realidade em que viveu passivamente. Se vai ao médico e é examinada, ao propor a repetição dessa experiência numa brincadeira, pode ocupar o lugar do médico. Isso faz com que possa construir seu repertório com respostas mais criativas. A brincadeira também é uma forma de, a partir da interação com outras pessoas, com o mundo externo, propor um compartilhamento entre o que vem de si e o que vem do outro, na construção de algo novo e conjunto. Brincar faz parte do desenvolvimento da criança. Faz parte de suas capacidades, mas também precisa da participação do outro. Se esta capacidade não é trabalhada, se não se permite ou não se oferece ou não se aceita a possibilidade de a criança brincar, ela terá duas opções: não divide seu mundo interno, fechando-se, ou desliga-se de seu mundo interno, adaptando-se pura e simplesmente à realidade. Em ambos os casos, teremos um adulto empobrecido psiquicamente e com reduzidas habilidades sociais e criativas.

Quais sintomas psíquicos e emocionais podem surgir em crianças que não brincam ou brincam pouco?

Psiquicamente falando, o brincar, quando falta, faz com que as trocas entre seu mundo de fantasia e a realidade sejam mais pobres e com menor qualidade. Toda a potência criativa da criança fica comprometida, não se permitindo interagir na realidade. As relações afetivas sofrem, e a exploração de si e do mundo externo ficam empobrecidas. Assim como um cientista precisa de criatividade para poder propor questões e possíveis respostas, nossa saúde mental necessita de que possamos criativamente aceitar, propor e trocar soluções em todos os âmbitos de nossa vida.

Quais tipos de brincadeiras ajudam as crianças a desenvolver suas habilidades e criatividade?

Num sentido amplo, temos, desde o nascimento, brincadeiras que ajudam no desenvolvimento psíquico da criança. A relação entre o cuidador e o bebê pode trazer muitos momentos de interação pelo brincar. Todas os jogos compõem um conjunto bastante importante para a construção da criatividade. A presença da fantasia de forma geral permite que a criança se coloque, questione-se e questione o seu entorno, procurando soluções e respostas mais efetivas para seus problemas e problematizações.

E com relação aos jogos por meio de celular, tablete e outros eletrônicos. Isso é bom ou ruim?

As atividades que são realizadas fora do contexto de interação com o outro humano, caso sejam excessivas, trazem prejuízos. O contato com a máquina não proporciona uma experiência de enriquecimento psíquico. Em sua grande maioria são repetitivas e mecânicas, com uma qualidade interativa predeterminada. Mas isso não significa que tenhamos de condená-las e proibi-las automaticamente. Por exemplo, os vídeogames considerados por algumas pessoas como violentos, podem ser um meio de a criança lidar com sua própria agressividade. Brincar com amigos, interagir com outras pessoas, claramente oferece uma experiência mais rica. Mas nossa realidade atual não favorece essas trocas, ficando elas restritas majoritariamente ao ambiente escolar. Filhos únicos, o espaço da rua não sendo mais um espaço de compartilhamento, os pais mais ocupados com o trabalho e a sobrevivência, a exigência de que as crianças performem com eficiência, estando o mais cedo possível prontas para o mercado de trabalho e para a concorrência são fatores que trabalham contra o desenvolvimento da criança e contra, consequentemente, a troca, o compartilhamento, a interação, propiciadores da riqueza psíquica.

Monica, muitos pais se assustam quando veem seus filhos pequenos tocando o próprio corpo, sentindo prazer com o próprio corpo. Você pode comentar sobre esse assunto?

O corpo é naturalmente uma fonte inesgotável de prazer. Nossa sobrevivência depende, inclusive, disso. Alimentamo-nos porque sentimos prazer, por exemplo. A criança, desde o nascimento, vive experiências de prazer e desprazer. Quando sente fome, sente desconforto. Quando se alimenta, sente prazer. Esse é um exemplo do corpo sentindo prazer. Depois a criança experimenta ser cuidada e seu corpo é manipulado por uma outra pessoa e ela descobre sensações boas que podem ser reproduzidas consigo mesma. Algumas dessas experiências não são comumente consideradas sexuais, apesar de o serem, já que são do campo do prazer. O trauma é constitutivo do ser humano como o conhecemos. Cada vez que nos deparamos com um limite, há um trauma. A educação é traumática. O processo civilizatório é traumático. Os pais devem educar a criança para que se torne um ser civilizado e possa viver em sociedade, pois depende disso. Isso é extremamente traumático. A forma como os pais conseguiram se organizar nesse processo é traumática para si e para os filhos. A sexualidade tem um grande papel em tudo isso, pois devemos abrir mão de viver para o prazer, para colaborarmos com o grupo em que estamos inseridos. A intensidade do trauma depende da dificuldade de renunciar. Isso tem a ver tanto com a história dos pais com seus pais, quanto da história dos pais com seus filhos. Primeiramente, é importante lembrar que as atividades de cunho sexual fazem parte do crescimento e desenvolvimento saudável das crianças. Portanto, cabe aos pais observar e verificar quando esses comportamentos se tornam excessivos, traduzindo ansiedade e sofrimento. Cabe também aos pais e adultos a orientação quanto à adequabilidade destes comportamentos – quando e como. É também tarefa dos pais e adultos prover as informações requisitadas pela criança sem sobrecarregá-la com conteúdos que ainda não estejam ao seu alcance. É importante que se tenha em mente que a sexualidade infantil e a forma com que a criança a vive não tem equivalente na vida sexual dos adultos, sendo assim a leitura deve sempre ser feita sem que se “adultizem” essas manifestações. Portanto, as trocas entre crianças e adultos devem respeitar os limites da criança, preservando-a de dados que digam respeito às experiências sexuais dos adultos.

Há um assunto polêmico que diz respeito à boa medida entre dar amor e atenção às crianças e saber dar os limites para que elas não cresçam querendo tudo para si, não vendo o outro e não respeitando o outro, o que lhes causa grandes prejuízos.

Amor é um sentimento civilizado. Primeiramente, os pais amam seus filhos por serem esses uma projeção narcísica de si mesmos. Ou seja, os filhos deverão realizá-los naquilo em que eles próprios falharam. Os filhos deverão ter aquilo que eles julgam ser importantes para si mesmos. Esse é o movimento para que a criança consiga um lugar junto aos pais e para que os pais se disponham a cuidar dessa criança. Começamos, portanto, esse processo tentando superar os limites que nos foram impostos pelo nosso próprio processo civilizatório. Mas os limites são inevitáveis para nossa inserção no social. Sendo assim, uma nova forma de “amor” deverá ser desenvolvida entre pais e filhos, visando essa inserção num âmbito mais amplo do social. Isso pode acontecer quando há um equilíbrio entre o desejo narcísico dos pais, as necessidades da criança e as demandas sociais daquele grupo. Esse é um processo que é traumatizante para ambas as partes, por implicar constantes renúncias. O trauma passa a ser negativo quando vai além do suportável psiquicamente pela pessoa. Winnicott (Donald Woods Winnicott, pediatra e psicanalista inglês – 1896-1971) fala da mãe suficientemente boa como sendo a melhor solução, pois essa mãe traumatiza na medida certa, deixando a criança livre para seu crescimento como alguém diferenciado. Para que a criança tenha um desenvolvimento saudável é preciso que os adultos responsáveis por sua educação possam formular regras e comunicações claras que serão aliadas a um comportamento consistente. Os pais devem proteger a criança contra riscos à sua integridade. Se uma criança quer brincar com fogo, os pais devem impedi-la explicando o motivo: eles não podem permitir que a criança faça algo que vai machucá-la.  Podem, inclusive, apontar que, enquanto ela for pequena, esta atividade a coloca em perigo, mas que no futuro, quando for grande, será capaz de fazer uso do fogo sem que isto represente um risco.

Se as regras mudam de acordo com a culpa ou cansaço dos pais, a criança não será capaz de entender a lógica, e tentará sempre que possível burlá-las conforme seu desejo. Isso poderá gerar ansiedade e insegurança por não poder contar com adultos confiáveis e ter ainda a capacidade de gerenciar as situações em que se envolve.

O que é ser uma mãe suficientemente boa?

A mãe boa é aquela que atende as necessidades da criança antes mesmo que ela tenha a capacidade de as formular. É a mãe que um bebê recém-nascido precisa. Conforme cresce e se desenvolve, a mãe não precisa mais atender as necessidades de seu filho com tanta presteza, pois a criança adquire a capacidade de comunicar melhor suas necessidades e consegue também esperar até ser satisfeita. A mãe que consegue dar este espaço de autonomia para seu filho ao longo de seu crescimento, ampliando-o de acordo com o amadurecimento deste é considerada uma “mãe suficientemente boa”, ou seja, ela oferece ao filho somente aquilo que ele não tem capacidade de conseguir por conta de sua imaturidade. É uma mãe que consegue reconhecer as aquisições e progressos da criança, permitindo à criança experimentar seus próprios recursos a fim de resolver suas necessidades. A mãe suficientemente boa é aquela que vai se tornando aos poucos desnecessária.

O que os pais precisam saber sobre a grande importância da primeira infância para a constituição psíquica da criança? O que ela precisa receber nessa primeira fase da vida?

A primeira infância é um momento crítico em termos de desenvolvimento. É quando a criança está em seu período de maior dependência em relação ao adulto cuidador. Suas necessidades somente podem ser satisfeitas por esse outro que por ela se interessa e se responsabiliza. O que, então, se constitui essencial nesse período é que esse adulto cuidador possa se desprender na medida do possível de suas próprias necessidades para poder estar atento às necessidades da criança. Isto deve ser feito apenas enquanto é estritamente necessário, já que é preciso que esta criança caminhe e se desenvolva para uma “independência”, que jamais será alcançada, mas que deve ser buscada.

Com a sua experiência na clínica com crianças, o que você entende como sendo os grandes “erros” que os pais cometem com seus filhos pequenos que acabam por lhes causar sofrimento?

Os grandes “erros”, se é que o podemos nomear assim, dizem respeito ao não reconhecimento da criança como um outro, como um sujeito diferente de si. Isso acontece tanto quando não estabelecemos vínculo, como quando este vínculo é da ordem da simbiose, ou seja, quando a criança não tem valor por si, não tem direito a uma existência própria, sendo sempre submetida ao desejo de seus pais, não sendo, portanto, nada mais que um objeto.

No seu consultório, quais são os grandes sofrimentos que as crianças chegam?

O grande sofrimento que chega ao consultório, e isso não se restringe somente às crianças, diz respeito à construção do limite e da autonomia. Isso envolve tanto os adultos quanto as crianças. Isso envolve a relação entre as partes e a relação destas com sua própria história. Isso envolve a capacidade dos pais de se responsabilizarem e serem capazes de oferecer o que é preciso para que seus filhos possam ser alguém independentemente deles. Para isso, é preciso que ambas as partes aceitem renunciar ao ideal.

Muito se diz que as crianças são uma extensão dos pais. E que muitas vezes os pais procuram por terapeutas para seus filhos pequenos, mas, na verdade, quem precisa de terapia são eles. O que você tem a dizer sobre isso?

Nem sempre podemos nos defrontar com nossas próprias dificuldades e sofrimentos. É extremamente comum elegermos porta-vozes para tanto. As crianças são importantes porta-vozes de seus pais e da família de modo geral. Um sintoma que aparece em uma criança conta, obviamente, da criança, mas conta certamente da relação familiar em que esta criança está inserida. Por vezes, a criança se apresenta apenas como porta-voz, como aquela que denuncia o que não vai bem com o grupo. Quando isso acontece, temos de envolver aqueles que não conseguem em nome próprio procurar ajuda.

 

 

 

 

Monica Seincman é psicanalista, coordenadora do Núcleo de Psicanálise com Crianças do Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP), em São Paulo, supervisora da Rede de Atendimento Psicanalítico – Clínica do CEP e docente do Curso de Formação em Psicanálise do CEP. É também linguista, pós-graduada pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da Pontífica Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), pós-graduada em Finanças pela Faculdade Getúlio Vargas (FGV-SP).

No seu consultório, Monica atende adultos, crianças, casais e família.

Contato de divulgação: monicaseincman59@gmail.com

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