Fé e coragem para realizar seus sonhos

Terapeuta explica as causas do desânimo frente aos obstáculos e como cultivar a perseverança para conquistar o que se quer.

Quando Dr. Bach (1886-1936), o médico inglês que criou a terapia floral, lançou o floral Gentian, ele tinha em mente ajudar as pessoas que se sentem desanimadas, sem fé e esperança diante dos obstáculos. Gentian vem justamente ajudar a todos que queiram concretizar seus sonhos e projetos, passando pelos desafios com perseverança. Ana Roxo, especialista e docente em Terapia Floral, terapeuta junguiana e filósofa, fala nesta entrevista sobre o assunto de forma ampla e detalhada. Os motivos que levam as pessoas a desanimar facilmente de seus sonhos, quando é natural ter um certo desânimo frente aos obstáculos e quando é hora de procurar ajuda, como desenvolver a persistência, quais recursos psíquicos podem ser usados nos momentos de dificuldade e como Gentian é importante nesses momentos são alguns dos temas abordados. Mas, não é só isso. Ana relata sabedorias de vida importantes, como a que diz: “Precisamos aprender a olhar e a encarar o desafio de viver a experiência. Entendermos que conquistar ou perder faz parte da vida. Ninguém só ganha e ninguém só perde. Todo mundo gosta de ganhar, de ter um enfrentamento positivo e conquistar o que quer. Mas nem sempre é possível, mesmo para os muito preparados. Então, viva a experiência, aprenda com ela. As consequências podem ser muito positivas mesmo que aconteçam problemas no percurso ou até mesmo se o resultado não for o que você almeja.”

 Por Keila Bis

 

Ana, no estado negativo, quais são as características de uma pessoa com o comportamento Gentian?

No estado Gentian negativo, basicamente a pessoa perde a coragem após enfrentar alguns obstáculos. Muitas, já no primeiro obstáculo se questionam se devem ou não continuar já que houve uma “derrota” inicial. Os problemas que surgem naturalmente em qualquer empreendimento ou realização são fortes opositores à baixa perseverança do estado Gentian negativo. A falta de um comprometimento mais “robusto” está calcado na dúvida do sucesso da realização seja de um comportamento, seja de ações no mundo, negócios, carreira ou projetos pessoais. A dúvida surge logo após que qualquer obstáculo ou dificuldade se apresente. A pessoa fica desanimada com relação a esta situação chegando a desistência do projeto bem facilmente. E a dúvida está vinculada ao fraco reconhecimento da sua capacidade em realizar. Nesta situação pode faltar ao indivíduo no estado Gentian negativo uma visão um pouco mais ampliada do que compreende uma realização e suas consequências. As consequências podem ser muito positivas mesmo que aconteçam problemas no percurso ou até mesmo se o resultado não for o que se almejava. Porém, a experiência em realizar, os aprendizados e a superação de obstáculos não entram no saldo do Gentian negativo. Pode existir também uma certa lentidão no reconhecimento das suas capacidades frente ao que deseja realizar, e isso complica a visão e a perspectiva dos bons desfechos. Na minha visão, essas características são mais leves nos estados temporários de Gentian. Aqueles episódios que praticamente todos nós já vivemos em algum momento na vida, de duvidar do sucesso de alguma ação ou projeto que queremos realizar. As dúvidas nesse estado temporário são menos profundas e, portanto, podemos superar com maior facilidade. Já nos traços de personalidade Gentian, onde esse estado se misturou ao desenvolvimento da personalidade, essas características são mais contundentes e, portanto, o aprendizado dessa alma passa por mais etapas até que consiga superar essa perspectiva negativa de futuro.

 

Como o floral Gentian pode ajudar as pessoas nesse estado?

A essência floral Gentian sugere a realização das virtudes da paciência e perseverança, assim como as flores da planta Gentian, que são bianuais (florescem somente a cada dois anos) e só abrem no fim da estação quando a maioria das flores das outras plantas já encerraram. Apesar de pequenas, as flores púrpuras de Gentian são fortes e sólidas. Assim, o floral Gentian traz a compreensão de que a fé, o otimismo e a perseverança conduzem a bons desfechos, sejam quais forem os resultados. Gentian positivo abre a perspectiva de apreender a experiência, se fortalecer com esse aprendizado, perceber o caminho que percorremos enquanto buscamos a realização, e assim o resultado se torna mais uma etapa, e não a única meta. Isso vai reforçando o reconhecimento das nossas capacidades e nos sugerindo aprender com a experiência, enquanto perseveramos nos objetivos.

 

Uma pessoa que desanima facilmente diante das dificuldades, o que ela precisa desenvolver?

Em primeiro lugar, sugiro uma observação mais atenta sobre quais são as situações em que há desistência e quais não há. Depois, tentar perceber algum comportamento, emoção, sentimento ou pensamento “gatilho” que impulsiona à desistência. Por exemplo, lá na infância vivemos algo bem ruim quando estávamos na escola e fomos apresentar um trabalho para a classe. Os coleguinhas não receberam bem, fizeram muitas “piadas” ou bullying de fato. E isso aconteceu mais de uma vez, quando tentamos realizar uma atividade em grupo. Acabamos por entender que não somos aceitos, que temos falhas graves, que não somos adequados. Assim, cada vez que formos nos apresentar ou falar em público é possível que aquelas mesmas sensações de não nos sentirmos adequados ou à altura, surjam. Então, o “gatilho” aqui seria falar em público ou simplesmente dizer o seu nome numa reunião. Esse é só um exemplo bem superficial porque é provável que as questões se deem mais fortemente com situações vividas lá na primeira infância e nos relacionamentos familiares. Se houver essa percepção, um bom caminho de entendimento já foi alcançado e algumas atitudes podem ser trabalhadas. Manter um certo otimismo é muito importante. Para a vida e não só para não desanimar. Tira o peso desnecessário e muitas vezes irreal da tarefa ou do caminho até o objetivo. Aprender a se “alimentar” das suas vitórias e conquistas. Esse acho que é um ponto bem importante. Muitas pessoas conquistam grandes situações e deixam essa informação passar. Quando falo se alimentar, me refiro a introjetar as informações e sensações das conquistas que fazemos, não importa o tamanho, de forma que essas informações e sensações passem por boa parte do nosso corpo imaginário interno, e chegue até a pele. Possuir essas sensações de vitória são a garantia de que, quando duvidarmos de nós mesmos em alguma situação futura, temos essas informações de sucesso “instaladas” no nosso corpo (imaginário, mental, emocional, memória, ..). Assim, podemos recorrer à essas informações quando não estivermos muito seguros de que temos de fato capacidade para alcançar metas mais ambiciosas. Isso é construir também a autoestima e a segurança de que somos capazes. Existem situações que podemos fazer sozinhos como essas que sugeri. E certamente não há só essas, cada pessoa é um universo em si. Mas, há muitas outras situações que não conseguiremos avançar sozinhos. Nesse caso, a ajuda amorosa de amigos e familiares podem acelerar e facilitar a percepção que não conseguimos ter de nós mesmos. E para outros casos, só profissionais podem ajudar esse processo acontecer. Agora, nada disso vai funcionar se a pessoa não se colocar nesse caminho de auto-observação, empenho e responsabilidade sobre si mesmo. Mudar e melhorar dá trabalho. Mas é altamente recompensador!

 

É natural surgir um certo desânimo diante das dificuldades. Porém, quando isso deixa de ser natural e pode se agravar? E, caso se agrave, no que esse desânimo pode se transformar?

É natural sentirmos desânimos eventuais por várias razões, como cansaço, falta de motivação, tarefas ou atividades sem propósito, problemas de ordem pessoal (econômico, social), entre outras, que complicam o desenrolar do dia-a-dia. Pessoas com uma natureza mais sensível, frágil também podem se encaixar aqui, justamente por sentirem um pouco mais intensamente essas e outras situações. Deixa de ser natural quando o desânimo se torna permanente ou por um longo período sem uma causa consistente, como, por exemplo, uma perda, um luto, um trauma. Ou uma causa física como um desequilíbrio hormonal, por exemplo, que deve ser tratado pela medicina tradicional. Se nada de grave ou consistente aconteceu, mas o desânimo permanece, ele deve ser investigado e tratado se for o caso. A partir dessa situação, sem buscar por corrigir, compreender ou ressignificar essas condições, podemos pensar no desenvolvimento de uma depressão, entre outras coisas. Como estamos falando de Gentian vamos nos ater a possibilidade de desenvolvimento de um estado depressivo, não necessariamente um Transtorno Depressivo. Seja qual for a “densidade” do estado depressivo, deve ser tratado. A Terapia Floral e outras terapias como a psicologia, a psicanálise, a transpessoal ajudam no reconhecimento e percepção consciente do quadro atual e anterior onde esse estado depressivo, ou outros, se desenvolveu.

 

Quais são as possíveis causas de uma pessoa que tem frequentemente essa característica, esse comportamento de desânimo diante das dificuldades que a leva a desistir sempre dos seus projetos, por exemplo?

Eu diria que a dúvida sobre a capacidade de êxito de um projeto pode ser uma delas, Mas não só isso. No sentido filosófico, a dúvida sobre nós mesmos sempre nos acompanhará. Somos indivíduos em contínua formação, em contínua busca de ser no mundo. Nunca estamos prontos ou completos, só podemos continuar o desenvolvimento de sermos, isso é uma condição existencial. Portanto, como nunca estamos completos, a angústia e a dúvida é contingência de sermos humanos, não uma escolha e nem pode ser trabalhada para ser extinguida. Podemos apenas aprender a lidar melhor com isso. Mas, no sentido mais psicológico, termos dúvidas sobre nós mesmos e sobre nossas capacidades em alguns momentos é totalmente natural. Não estamos em contato o tempo todo com qualidades que já conhecemos em nós e muitas outras qualidades que ainda vamos desenvolver ou nos conscientizar delas. Pode se agravar quando passamos a reforçar ou a sistematizar os obstáculos ou dificuldades. Nesse sentido, precisamos olhar para trás, para a nossa infância e mais atrás ainda, para a nossa natureza individual. Todos temos uma natureza. Quando nascemos já trazemos conosco uma bem elaborada e estruturada base psíquica e uma programação orgânica. Se pensarmos num indivíduo que já traz na sua natureza uma predisposição ao abatimento ou a uma condição de diminuída individualidade, e soma-se a acontecimentos na infância que reforçaram a sensação de incapacidade e desistência, podemos pensar num agravamento dessa característica por reforço negativo contínuo ou persistente.

 

Nos momentos mais desafiadores, quais recursos psíquicos nós temos e podemos usar ou que seria bom que usássemos?

Precisamos aprender a olhar e a encarar o desafio de viver a experiência. Entendermos que conquistar ou perder faz parte da vida. Ninguém só ganha e ninguém só perde. Todo mundo gosta de ganhar, de ter um enfrentamento positivo e conquistar o que quer. Mas nem sempre é possível, mesmo para os muito preparados. Então talvez o “recado” seja: viva a experiência, aprenda com ela. Se alimente com as suas conquistas porque quando perder, serão esses recursos aprendidos anteriormente, bons e ruins, que farão a diferença na sua evolução e num novo enfrentamento. É sempre bom lembrar que TODOS nós temos muitas capacidades, qualidades e condições de enfrentarmos muitos desafios e obstáculos. Portanto, precisamos aprender a reconhecer e a desenvolver essas capacidades. No meu entendimento, ainda não há meio mais eficiente para isso do que o autoconhecimento. E isso pode acontecer de diversas formas. Viver já é o caminho para o autoconhecimento, ninguém passa ileso pela experiência de estar vivo. As pessoas mais auto observadoras e mais “presentes” nos acontecimentos do dia-a-dia, que já desenvolveram a condição de estar atentas a si mesmas e ao meio, a princípio têm melhores condições de reconhecer e adotar conscientemente suas qualidades para lidar com a vida. E isso faz com que a sua segurança em lidar com as situações esteja melhor “exercitada”. Reconhece mais facilmente as suas condições de enfrentar acontecimentos desconhecidos, porque passa a confiar na sua desenvoltura e capacidades de manejar os seus recursos internos para viver essas experiências. Mas, muitas pessoas não são tão auto-observadoras e sua atenção nem sempre está voltada para si e para o meio. Essas, acredito, podem recorrer as atividades que ajudem a melhorar essas percepções, que vão desde as atividades físicas, que melhoram consideravelmente a percepção do corpo, um caminho para manter o foco também em si mesmo, como até os vários tipos de terapias.

 

Você pode dar alguns exemplos de como as pessoas podem praticar esse estar atento a si mesmos e ao meio?

Eu peço para alguns clientes com essa dificuldade para que algumas vezes durante o dia se auto-observem. Perguntem-se como estão se sentindo exatamente naquele momento, frente as atividades que estão exercendo naquele momento. Está confortável, tem alguma apreensão ou se sente em paz? Tensão na execução da tarefa? Por que? Quais os motivos de estar tenso, em paz ou triste naquele momento? Essa parada para se observar, ajuda na percepção de si e do meio. A vida é tão corrida que às vezes um acontecimento que ocorreu pela manhã, que nos deixou tensos ou preocupados o dia todo, não se tornou consciente e, portanto, não temos condição de elaborar ou lidar melhor com isso. Porque provavelmente já estávamos envolvidos em outra tarefa ou outras situações da vida pessoal que exigem rapidez ou deslocamentos. O dia passou, a sensação de apreensão estava lá o tempo todo e não tivemos tempo de pensar sobre o que aconteceu, por que aconteceu, onde eu contribuí para o acontecimento, se é que contribuí. Parar para se perceber, entender, aprender e se posicionar com clareza diante dos acontecimentos do dia é um dos melhores caminhos para a gente não acumular ou até reprimir sensações e sentimentos desagradáveis.

 

Os desafios são nossa maior chance de aprendizado para amadurecermos, conquistarmos mais bem-estar mental e emocional?

Penso que os desafios são grandes aprendizados, sempre. Porque, mesmo que o resultado do enfrentamento do desafio não seja exatamente o que gostaríamos, qualquer resultado nos levará a reflexão e a percepção de qualidades que pensamos faltar em nós ou que conquistamos. Então, no mínimo, estaremos exercitando a consciência de nós mesmos. Mas, não são eles que “garantem” o bem-estar emocional/mental. A saúde mental depende de alguns fatores:

– um “embrião” de estrutura psíquica sem grandes fragilidades ou debilidades, que vem com a nossa natureza original. Entenda por natureza original algo da ordem de heranças de crenças familiares que passam de gerações em gerações, mesmo se muitos desses familiares não estiveram em contato direto. O que nos leva a crer que há uma “genética” de comportamento ou de alguma forma a ancestralidade deixa heranças de entendimentos sobre como atuar na vida.

– uma infância no mínimo razoavelmente atendida, não só nas questões de subsistência, mas também de acolhimento, cuidado e segurança;

– e como entendemos o mundo e reagimos a ele. Como recebemos e reagimos às vivências. Essa questão já está bem conhecida por aí, muitos já devem ter ouvido em algum lugar que, mais importante que o acontecimento é como recebemos e lidamos com o que acontece. É dessa percepção e reação que dependerá a qualidade do que vivemos e como vamos dar um desfecho para o vivido. E isso influenciará diretamente como enfrentamos a vida interna e externamente.

Penso que a nossa saúde mental/emocional passa necessariamente por esses três itens básicos.

 

Se, por algum motivo, uma pessoa é carente de um desses itens ou de dois deles ou de todos, é possível, mesmo assim, ela ir se transformando, adquirindo isso ao longo da vida de forma que possa viver a vida usufruindo dela, curtindo o viver?

Assim como o nosso corpo físico é um sistema e, portanto, quando uma função, tecido ou órgão falha (claro que não me refiro aos vitais, como coração e pulmão), o sistema tenta compensar da melhor maneira possível as funções de outros órgãos, do metabolismo… para que o sistema não entre em colapso. Acredito, então, que com a psique pode acontecer o mesmo. Provavelmente, haverá compensações e, se tudo der certo, se outras estruturas psíquicas compensarem, a possibilidade desse sujeito se sair bem, existe! Por exemplo: existem fases do desenvolvimento humano que algumas vezes não são vividas completamente ou satisfatoriamente. E vemos que várias dessas pessoas “compensam” essa fase posteriormente, como “adolescentar” tardiamente ou viver um período buscando satisfações que são mais características da infância. É possível que esses comportamentos posteriores sejam uma manifestação compensatória. Mas, ainda assim nem tudo poderá ser compensado, se a situação vivida foi muito limitante ou grave.

 

Ana, como desenvolver a perseverança e a resiliência?

Resiliência é outro termo da moda que vem da física, se não me engano. Objetos, estruturas e elementos que mesmo sob pressão e tensão conseguem retornar, manter ou não corromper o seu estado original. Como o conceito mesmo já diz e aplicado no psicológico, seriam os indivíduos que têm capacidade de adaptação suficiente para, mesmo sob pressão ou estresse, voltar ou manter o seu equilíbrio. A resiliência humana então depende de vários fatores como, adaptação, manejo adequado dos impulsos e das frustrações, empatia, segurança, visão positiva de si, do meio e dos resultados de maneira realista, e motivação para viabilizar soluções e objetivos. Todas essas qualidades juntas não são fáceis de achar ou mantê-las por tempo indeterminado. Somos seres orgânicos, que temos limites, dores e frustrações. E lidar com isso é muito mais importante do que ter resiliência, no meu entendimento.

 

Há algo que gostaria de dizer que não foi perguntado?

E se você leu tudo isso e se identificou ou já desanimou com a sua responsabilidade no seu processo de autodesenvolvimento, tome Gentian já! ;).

CONTATOS: www.anaroxo.com; contato@anaroxo.com

 

 

 

LEGENDA DA FOTO: Ana Roxo, especialista e docente em Terapia Floral, terapeuta junguiana e filósofa, atende seus pacientes no seu consultório em São Paulo, em Sorocaba, no interior paulista, e também via on-line. Ana é também facilitadora da Healingherbs Bach Flower Essences e ministra cursos de formação em Terapia Floral com Psicossomática e Psicopatologia.

 

 

 

 

 

 

 

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