O feminino e o masculino que habitam em nós

Homens e mulheres estão sujeitos a esses dois princípios psicológicos que influenciam as relações, o viver, a saúde e o sentir.

Psicóloga de orientação junguiana e terapeuta floral, a carioca Rosângela Teixeira, é referência no universo da terapia junguiana (Carl Gustav Jung, 1875-1961, psiquiatra e psicoterapeuta austríaco, fundador da psicologia analítica). “Jung foi quem primeiro observou a existência das polaridades masculina e feminina na natureza do ser humano”, explica Rosângela, que ministra cursos pelo Brasil sobre um dos principais conceitos da psicologia profunda de Jung, a Sombra. Nesta entrevista, a terapeuta explica o que são essas polaridades, as características de cada uma, como elas agem em nós, o que ocorre quando estão desequilibradas e aponta soluções para mantê-las em harmonia.

Por Keila Bis

O que significa, do ponto de vista da psicologia junguiana, termos uma polaridade masculina e uma feminina?
Jung foi o primeiro cientista a observar que a natureza humana é composta de dois princípios psicológicos: o masculino e o feminino. Segundo ele, os homens costumam pensar e julgarem-se apenas como homens e as mulheres pensam e agem apenas como mulheres, mas os fatos psicológicos mostram que todos nós seres humanos temos presentes em nossa personalidade aspectos opostos bem definidos. Dentro de todo homem existe o reflexo de uma mulher, e dentro de cada mulher existe o reflexo de um homem. Para Jung, o funcionamento da psique se origina da tensão entre os opostos (masculino e feminino), sendo que essa dualidade é a condição para que haja crescimento e amadurecimento.

Quais são as principais características do princípio feminino e como ele se manifesta em nós?
O aspecto feminino em nós é aquele que tem contato com as emoções. É ele que nutre, acolhe, cuida. Doa. Quando ouvimos nossa intuição estamos em contato com ele. É com ele que seguimos na vida aceitando as inúmeras “mortes”, fins de ciclos e renascimentos que fazem parte dos nossos aprendizados. Está presente quando nos entregamos e deixamos a vida fluir, porque passamos a ter confiança. É através do princípio feminino que acessamos a nossa segurança. É ele que diz “vai passar”. Porque com ele sentimos que estamos amparados.

E quais são as masculinas? E como essa polaridade se revela em nós?
São nossos aspectos lógicos, racionais. Com ele nos tornamos agressivos, competitivos e tomadores de decisões. Independentes. O masculino disponibiliza para nós qualidades de líderes. Com ele nos tornamos uma autoridade. É dele a responsabilidade pelo prover. É ele que usamos quando queremos separar o bem do mal, o certo do errado, o pode do não pode. É dele a lei, a disciplina e a ordem. É ele que coloca limites para nós mesmos e para o outro.

Homens têm mais do princípio masculino e as mulheres mais do feminino? É assim que funcionam esses dois aspectos em nós?
Não, não é assim que funciona e estamos cada vez mais presenciando o conflito entre as dimensões masculina e feminina em nós. E como essa falta de consciência sobre esses aspectos anda afetando sobremaneira a saúde psíquica! Estamos vivendo uma época em que os homens são mais sensíveis e suas emoções estão sobrepujando uma ação (a polaridade masculina) mais deliberada. São mais românticos, gentis, compreensivos e pacientes, mostrando que fazem maior uso do seu aspecto feminino. Já as mulheres estão mais decididas, impulsivas, irritadas, convictas fazendo maior uso do seu aspecto masculino em detrimento do feminino.

Quando uma mulher está com o seu feminino desequilibrado, quais sintomas isso pode gerar, como ela pode se sentir e como isso pode influenciar na sua vida afetiva, profissional, …?
O desequilíbrio do aspecto feminino na mulher é bastante grave e é o que estamos acompanhando em nossos consultórios hoje em dia. A mulher de hoje é eficiente, motivada, tem como ideal atingir metas e alcançar sucesso (princípios do masculino), mas nunca ela esteve tão distante da sabedoria da natureza e dos seus instintos femininos. Um erro fatal para qualquer mulher. Parece que está se tornando impossível transmitir alegria de viver, fé, confiança na vida e no imponderável… (princípios do feminino). Endometriose, ovários policísticos e infertilidade são sintomas da mulher moderna clamando pelo seu feminino.

E com relação ao homem, quando ele está com o seu masculino desequilibrado, quais sintomas isso pode gerar?
No desequilíbrio de seu potencial, eles podem se sentir tristes, com tendência ao mau humor, extremamente sensíveis, mergulhados num mar de emoções sem conseguir pensar racionalmente. Ficam rabugentos, batem portas, são sarcásticos, jogam indiretas e deixam de ser objetivos. Homens ressentidos estão deixando seu lado feminino atuarem muito mais do que o próprio masculino. Caso esses comportamentos se tornem crônicos, o homem pode chegar a depressão.

É, portanto, importante para nós mulheres e para os homens termos o equilíbrio perfeito dessas duas polaridades em nós?
Sim, é muitíssimo importante que possamos perceber o papel da complementaridade entre as dimensões masculina e feminina para a saúde da nossa psique. E também para que tenhamos consciência do aspecto em nós que está sendo mais expresso em detrimento do que está em desuso. Só não precisamos ter a intenção de buscar um equilíbrio “perfeito”. No processo de autoconhecimento seria muito importante que pudéssemos reconhecer em nós o aspecto da nossa personalidade que fazemos maior uso para que possamos trazer à tona as características negligenciadas ou desconhecidas por nós. Quando somos muito passivos (as) estamos precisando da ajuda do nosso aspecto masculino. Quando controlamos e estamos muito convictos das nossas opiniões é hora de acessar nosso potencial feminino. O maior desafio para todos nós é o de tornar a relação entre os opostos cada vez mais próximos de uma unidade harmoniosa.

Você pode dar mais exemplos desse descompasso entre as polaridades?
Vou dar um exemplo usando uma palavra da sua pergunta anterior quando você se refere ao equilíbrio “perfeito”. O nosso lado masculino é que prima pela perfeição e tantos homens quanto mulheres que usam mais o lado masculino se tornarão hiperexigentes, críticos e até desumanos na busca por essa perfeição. Essas pessoas terão a tarefa de se acolherem, aceitarem seus erros e não se culparem tanto por sua perfeita imperfeição. Acolher e aceitar-se são características do feminino em ação.
Pessoas com aspecto masculino predominante podem falar pouco dos seus sentimentos, muitas vezes são vistas como pessoas frias. Sua tarefa será a de confiar no outro. Para isso, os recursos do seu feminino terão que ser acessados, porque confiar, entregar-se e ter intimidade fazem parte de um bom uso do feminino.

A desarmonia entre esses princípios influencia nos relacionamentos?
A dificuldade de relacionamento e o grande desencontro entre as pessoas hoje podem ser fruto do desconhecimento dessas forças inconscientes que nos regem. Quando a mulher passou a fazer maior uso do seu aspecto masculino, os homens tiveram que lançar mão do seu feminino. Nessa busca de equilíbrio, o que estamos vendo são homens e mulheres perdidos em seus papéis arquetipicamente definidos. E o amor anda perdendo essa batalha.

Como podemos equilibrar, harmonizar esses polos em nós e mantê-los saudáveis?
É muito importante, num primeiro momento, que você possa se observar. Veja como reage às situações. Perceba se você é mais decidido, impulsivo, empreendedor ou, por outro lado, dependente, com mudanças bruscas de humor, explosões emocionais, depressão… Nesses dois casos os aspectos estão em desequilíbrio e as relações afetivas serão bastante afetadas. Tornar-se consciente é poder ter a chance de se tornar receptivo (polaridade feminina) às ideias empreendedoras do seu lado masculino. Se você sempre tenta impor sua vontade (polaridade masculina), seria muito importante que você pudesse acessar a segurança do seu lado feminino. Se você começa a se perceber como muito crítico (polaridade masculina) seria muito bom que buscasse aceitar-se para aceitar o outro, potencial do feminino.

A harmonização do masculino e feminino influencia na autoestima e autoconfiança?
Integrar os opostos contribui para o desenvolvimento de um ser humano íntegro e coeso que terá recursos disponíveis para enfrentar os grandes aprendizados da vida e aprender com eles. Na busca pelo equilíbrio das nossas potencialidades surge o nosso grande potencial criativo, o de criar um EU. Reconciliar esses parceiros invisíveis dentro de cada um de nós resulta em uma psique cada vez mais consciente a caminho da individuação e ao encontro do “si mesmo”, aquele que cada um é.

 

 

Rosângela Teixeira é psicóloga de orientação junguiana e terapeuta floral

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E-mail: rosangelateixeira.floral@gmail.com

Posted in Entrevista.

2 Comments

  1. E um tema muito importante. Que dará mais clareza com relação a própria maneira de se ver no espelho da alma. Buscando um equilíbrio e viver melhor com entendimento e liberdade. Abraços e obrigada.
    Fátima.

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